09 abril 2010

No terceiro dia

Existem pessoas que sempre lamentam a situação em que a humanidade se encontra. Esses lamentos se fazem mais clamorosos de tempos em tempos, especialmente em épocas de transição e de dificuldades maiores.

Não é por acaso que o ano litúrgico, no seu início e no seu fim, trata também de questões semelhantes. Para os leigos no assunto, os textos que a liturgia da Palavra apresenta nesses períodos,
falam do fim do mundo. E, usando um modo estranho para a nossa concepção atual, apresentam cenas catastróficas: é o estilo apocalíptico. No fundo, no entanto, o que se quer destacar com isso é a salvação que vem de Deus para os que seguem a Jesus Cristo em qualquer momento.

O mundo hoje, como, aliás, também em outros tempos, não vive conforme as regras estabelecidas pelos “bons”. Parece que os maus e as suas obras ruins estão tomando conta de tudo. Não tem mais saída. Do jeito como está somente uma intervenção do alto pode solucionar o que os homens não conseguem mais ajeitar. Deus, sob o ângulo dos “bons”, virá com castigos para os maus. Os “bons” deverão se proteger para não serem arrastados com as calamidades que se precipitarão sobre o mundo dos homens. O melhor é não se envolver com as impurezas que assolam a realidade dos humanos. Assim, o pequeno número dos que vivem na pureza se angustia apenas em pensar no mundo que os rodeia. Estão no mundo impuro, mas sempre com saudades de outro mundo, longe desse que está cheio de perversos. Os “bons” pensam que possuem fé; mas essa, quando é vista com mais atenção, não é a mesma ensinada e vivida por Jesus de Nazaré. É mais uma relíquia histórica do que virtude teologal. Relíquia porque satisfaz necessidades do além; e histórica no sentido de já ser algo do passado.

As pessoas que agem dessa forma não estão conscientes de que para se chegar ao mundo novo é preciso passar pelo mundo atual. Jesus de Nazaré não saltou para o terceiro dia sem passar pelos “três dias”. Ele foi até o fim, assumindo a cruz e morte, próprios de todo ser humano. Os “três dias” podem muito bem significar o período das provações, tanto para Jesus quanto para qualquer ser humano. As provações certamente continham grandes dificuldades para Jesus, assim como as contém para quem quer que seja, também hoje. Ele, Jesus, derramou todo o seu sangue e confiou a Deus o seu futuro, como também o projeto de sua ação – a implantação do Reino de Deus. O terceiro dia – dia da Ressurreição – pode ser chamado de “dia D”, pertence a Deus. Essa era a convicção que lhe deu tanta confiança. Onde está esse terceiro dia para os cristãos de hoje?

Seguindo a lógica parece que o dia da vitória é o dia da derrota dos maus e da premiação dos “bons”. Tudo está levando a crer que os maus e os “bons” estão forçando a consumação. Pouco tempo resta. Os maus são cada vez piores; e os “bons”, cada vez melhores (pois não se contaminam com as maldades, vivem em pequenos grupos onde rezam, se benzem, dão esmolas…)! Mesmo que Deus não queira, vai ter que agir. Esquece-se, no entanto, que quando Jesus confiou totalmente a sua vida e a sua causa nas mãos de Deus, ele não fugiu da realidade de um mundo cheio de maldades. E que o terceiro dia não foi forçado; era o dia de Deus. Também hoje, ninguém pode forçar nada: o único caminho a ser seguido é o do compromisso com a transformação do que está corrompido; o resto fica nas mãos de Deus. Ele saberá “criar um novo céu e uma nova terra”, onde não haverá mais “bons” e maus, mas somente os que confiam em seu amor que é eterno.

Portanto, que ninguém queira antecipar o terceiro dia. Ele pertence a Deus e não será como o ser humano possa imaginar, mas somente a consumação plena de seu amor, que saberá perdoar e recompensar cada gesto sincero e confiante, mesmo que limitado, do amor humano.
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Pe. Mário Fernando Glaab é Mestre em Teologia Dogmática, Professor de Teologia no Instituto de Filosofia e Teologia Santo Alberto Magno e Pároco da Paróquia N. Sra. de Fátima, União da Vitória/PR.
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