10 junho 2011

Sete dores de Nossa Senhora

INTRODUÇÃO

Um dos títulos mais expressivos dados à Virgem Maria é o de Rainha dos Mártires. Ele enseja reflexões profundas sobre a obra redentora de Cristo e a co-participação de Maria na mesma. Além disto, as lições da Senhora das Dores são valiosíssimas.

Santo Isidoro assevera que os mártires são testemunhas “porque sofreram para dar testemunho de Cristo e lutarem até à morte pela verdade”1. Segundo a teologia, o martírio inclui a morte ou padecimentos mortais que assemelham aquele que padece a Jesus Cristo, uma vez que o móvel de tal sofrimento é sobrenatural. O amor a Deus é a essência daquela atitude.

Grandes as tribulações que suportou Maria. A ela a Liturgia aplica as palavras de Jeremias: “A quem te compararei, ou a quem te assemelharei, ó filha de Jerusalém? A quem te igualarei, ó virgem, filha de Sião? É grande como o mar a tua tribulação; quem poderá curar-te”2?

A intensidade das dores desta Senhora foi na proporção mesma de sua imensa dileção para com seu divino Filho. Este era o Deus encarnado em seu seio materno, bem infinito a quem ela duplamente amava. É este Ser ao qual estava singularmente unida que ela contemplou entregue às maiores dores físicas e morais que a uma criatura foi dado experimentar.

Assim, com razão, ela é chamada Rainha dos Mártires. Seus padecimentos foram todos morais e seu verdugo implacável o seu terníssimo coração materno. Maria foi mártir não por paixão, mas por compaixão; não pela espada de um carrasco, mas pela pujante angústia interior, tão grande que, se não fora a graça divina, ela teria sido fulminada em cada transe doloroso pelo qual passou.

As dores morais são muito mais cruéis do que as corporais.

A história registra a capacidade incrível que as pessoas têm para, anos e anos, conviver com terríveis padecimentos físicos. A dor moral, porém, quando aguda, ou leva à loucura ou causa fulminante morte.

Uma vez que Deus quis associar Maria à obra salvadora, Ele lhe deu o suporte divino de sua força sobrenatural para que ela não desfalecesse.

O papa Bonifácio IV, quando incorporou ao cristianismo, a 13 de maio de 609, o antigo Panteão, o dedicou, apropositadamente, a Sancta Maria ad Martyres.

Ela por que muito padeceu, se tornou co-redentora da humanidade.

Os teólogos que tratam deste aspecto da mariologia são unânimes em frisar que os sofrimentos de Maria não eram absolutamente necessários à redenção. No sentido próprio da palavra só Cristo é o Redentor do mundo. Ele não precisa da cooperação de nenhuma criatura. Isto é ponto pacífico. Entretanto, há uma palavra de São Paulo sumamente expressiva: “Eu que agora me alegro nos sofrimentos por vós, e que completo na minha carne o que falta ao sofrimento de Cristo pelo seu corpo, que é Igreja”3. Não obstante a paixão do Salvador ser dum mérito infinito, e por isto completa, nada a lhe acrescentar os padeceres dos homens, o Apóstolo mostra que se coisa alguma faltou a Jesus sofrer no seu físico, no seu corpo místico, de que somos membros, há algo a ser completado pelo sofrimento. Deste modo, num sentido subordinado e participativo existe uma cooperação com o Salvador na redenção do mundo. É neste aspecto que, como ninguém, Maria co-participou. Suas tribulações não têm similar nos anais dos povos. Adite-se que ela é co-redentora também neste sentido de que, por desígnios imperscrutáveis de Deus, ela foi incluída no plano soteriológico. Dela, de fato, recebeu Cristo a natureza humana e dela se fez dependente em uma parte de sua vida. As atribulações desta Senhora, conseqüência inevitável de sua maternidade divina, se inserem então, de modo peculiar, no processo salvífico. O Todo-Poderoso, realmente, não iria permitir tantos desgostos sem motivos especiais. Seriam inteiramente ilógicos os dissabores e desares desta Mulher bendita se estes não tivessem uma destinação superior. O Pe. Faber declara: “Sendo, pois, simultâneas a Compaixão de Maria e a Paixão de Jesus, ou melhor dizendo, sendo aquela uma parte integrante desta, participa de seu caráter de sacrifícios e de expiação, e isto de modo e em grau singulares e incomunicáveis a qualquer padecimentos expiatórios dos santos. A Paixão foi o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz e a Compaixão foi o sacrifício de Maria ao pé da Cruz, sua oferenda ao Eterno Pai, oferenda de uma criatura sem pecado, consumada para expiar culpas alheias”4.

A compaixão de Maria por vontade de Deus integrou a Paixão de Cristo. Suas aflições não foram um mero ornato nos passos atribulados de seu Filho. Não foram sem sentido. Se Deus as permitiu é porque, como soe acontecer na ordem universal, havia uma destinação sublime a tantos padeceres.

Pelo Evangelho se sabe de momentos cruciais para Maria, nos quais as fibras mais sensíveis de seu coração perceberam angústias horripilas.

Considerá-las é haurir preciosas lições.

PRIMEIRA DOR

Dor moral imensa, antecipação de todas as demais que deveria suportar é a que se abateu sobre Maria na apresentação de Jesus no templo. Com efeito, foi uma antecipação terrível de instantes lancinantes e cuja imprevisibilidade aguçou o sofrer da terna mãe. São Lucas narra o fato. Diz ele que, concluídos os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, ela e São José levaram o menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor. O velho Simeão, conduzido pelo Espírito Santo, foi ao templo e lá tomou Cristo nos braços e o exaltou como “luz para iluminar as nações e glória de Israel”5. Após abençoar José e Maria disse a esta: “Eis que este (Menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E uma espada traspassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos”6. Profecia terrível que obscurece para sempre a dita daquela mãe. Toda a tragédia messiânica se lhe antolha com rudeza singular. Ela sofre menos com a perspectiva de uma lâmina pontiaguda a lhe dilacerar o peito do que com a triste realidade sobre o seu dileto filho, signo paradoxal de vida e de morte. Daí por diante todas as vezes que ela contemplasse seu meigo Jesus as palavras cortantes do ancião hierosolimita seriam lembradas, furtando-lhe acremente as naturais alegrias que a infância oferece aos pais. Pondera Faber: “Daquela hora em diante, cada ato de Maria foi para ela um padecimento; cada gozo, uma fonte de amarguras. Não havia em sua alma um só recanto onde a aflição não penetrasse. Cada um de seus olhares para Jesus, cada movimento, cada palavra do Menino-Deus, suscitavam e exacerbavam sua amarga pena. O mero passar do tempo aumentava sua dor, porquanto apressava as lúgubres horas do Gethsemani, os tredos momentos do Calvário”7.

Importante, porém, é o fruto espiritual que se deve tirar de tanta angústia. O apreço que o cristão tiver pela graça divina, a qual custou inauditos tormentos a Jesus e a Maria, é como se revela gratidão por generosidade assim repleta de amor. Ao viver em plenitude esta vida divina, obtida à custa de exulcerações tão cheias de acridez, se valoriza o sangue de Cristo e o sacrifício incruento da Virgem Santa. Além disto, lembra Fulton Sheen: “Se Maria, sem pecado, aceita com alegria a espada que Lhe vem da Divindade sem mancha, qual de nós, pecadores, se lamentaria, quando o próprio Jesus nos permite sofrer pela remissão de suas faltas”8?

A primeira ferida fora aberta. O martírio apenas iniciara.

SEGUNDA DOR

Não demorou muito e o vaticínio sombrio de Simeão se desdobraria.

A José um anjo transmite uma ordem vinda do céu. São Mateus registra o fato. Nem bem os Reis magos haviam partido, após renderem suas homenagens ao divino infante, “eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque Herodes vai procurar o menino para o matar. E ele, levantando se, tomou de noite o menino e sua mãe e retirou-se para o Egito. E lá esteve até à morte de Herodes”9.

Bem se pode aquilatar os sobressaltos da Virgem Santa ante a antevisão de um rei Todo-Poderoso a querer assassinar-lhe aquele que era as delicias de seu coração. As incertezas de um exílio, a penosa viagem para regiões desconhecidas foram, entre outras, preocupações a pungir-lhe o espírito. Durante o desconfortável percurso, o horror se apoderava constantemente dela. Qualquer ruído que poderia pressagiar a aproximação dos ímpios verdugos em busca de seu Jesus, proporcionava à mãe agoniada novos sobressaltos. As provações e privações que suportou em terra estranha fizeram deste episódio um dos mais horrendos vividos pela Sagrada Família.

Ante o mal Maria foge. Que belo ensinamento! A fuga de tudo que pode matar a vida da alma é tática espiritual de valia inestimável.

Herodes quer matar a criança. Maria a salva e repara com este gesto os assassinatos de tantos inocentes, ceifados barbaramente pela ignominia do aborto, crime execrando. Mãos satânicas de quem o pratica, desalmadas como as dos soldados de Herodes que trucidam e massacram. Corações de pedra que movidos pela cupidez, pela obsessão do poder cometem os maiores desvarios. Espezinham impiamente o mandamento sagrado: “Não matarás”. Maria sofre para defender a vida de Jesus e é um convite vivo às mães para que nunca se façam cúmplices de um assassinato, através do aborto criminoso.

Muito atormentada a Mãe ao fugir com um Bebê nos braços. Entretanto, “se fosse necessário, mil vezes Ela fugiria para o Egito, mil vezes suportaria temores, para impedir que uma só alma cometesse qualquer pecado, tudo por amor de Seu Filho, por amor de Deus”10. Aí está um outro pensamento para uma profunda reflexão dos que cultuam as dores da Mãe sofredora.

TERCEIRA DOR

Agora Jesus tem doze anos e “crescia em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens”11. É então que a Providência reserva a Maria outra dramática ocorrência. Está também no Evangelho.

Todos os anos José e Maria iam a Jerusalém por ocasião da Páscoa. Ao regressarem da cidade santa o Menino Jesus lá ficou. Era costume caminharem os homens e as mulheres em grupo separados. Foi natural que os pais não dessem falta do filho amado. ao perceberem sua ausência, imediatamente, voltam a Jerusalém e, durante três dias, se põem a procurá-lo. Encontram-no no templo entre os doutores.

As palavras de Maria revelam o que fora o pesar daquelas horrentes horas: “Filho, porque procedeste assim conosco? Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição”12.

Foram, de fato, de esquisita acridão aqueles dias horroríficos. No Egito, apesar dos pesares, ela tinha Cristo junto a si e isto mitigava-lhe um pouco as angústias. Doridos foram, porém, os instantes sem Ele e, na verdade, sem saber onde ele estava. Maria perguntava a si mesma se não teria sido incúria sua aquela triste perda. Por entre ansiedade horrífica vasculhou a capital, onde os transeuntes indiferentes em nada dulcificavam sua agonia. Sua alma foi envolta por caliginosas trevas. Estar longe daquele que era seu amor supremo significava um martírio de incalculável proporções. Nada a podia confortar.

Qual a razão daquela acerba aflição?

Para ensinar aos homens a buscarem a Cristo sempre que o perderem pelo pecado.

Reflete Fulton Sheen: “Mostra-nos Ela que, quando perdemos a Deus, não devemos limitar-nos a esperar que Ele volte. Devemos ir procurá-lo, e é ela que, para a alegria de nossa alma, sabe onde o pode encontrar”13.

É ela que conduz o pecador arrependido ao templo para, através da absolvição, reaver a presença de Deus dentro de si. É ela que leva o sacerdote ao pecador moribundo e o faz reconciliar de novo com Cristo Salvador. É ela, pelo que sofreu nesta busca de seu Filho, que mereceu a conversão de tantos espíritos rebeldes e reparou a indiferença de muitos que vivem longe do redil do Bom Pastor.

Muito importa ao devoto de Maria mentalizar realidades tão consoladoras. Ela revela que há sempre um caminho para reencontrar Cristo longe do qual prolifera a tristeza e a angústia existencial.

QUARTA DOR

O quarto ato do drama pungente de Maria foi seu encontro com Cristo na Rua da Amargura. Ela, que estaria junto à cruz como atesta São João14, “o seguia na grande multidão de povo e de mulheres” conforme nos relata São Lucas15. Espetáculo dantesco: a mais terna das mães a ver seu filho dileto retalhado de feridas, levando pesado lenho às costas rumo ao local onde iria ser impiedosamente crucificado. Ouve estarrecida injúrias, insultos, blasfêmias. Contempla-O escarrado, ensangüentado a caminhar envolto em horríferas tribulações. Chocante para a mãe atribulada vislumbrar a cabeça de seu dileto filho coroada de penetrantes e agudos espinhos. Ela o percebe débil a cair diversas vezes por terra. Nada, contudo, pode fazer por ele. Nunca uma mãe fora submetida a tamanho vexame. Admirável, entretanto, a fortaleza daquela mulher extraordinária.

Adite-se que, enquanto Jesus com sua palavra divina deslumbrou as multidões e arrastou admiradores ou enquanto ele deixava manifestar fulgores do céu, por meio de seus portentosos milagres, Maria, a humilde Madona, como que temerosa de atrair sobre si algo da glória do filho, ocultava-se inteiramente. Agora, porém, que Jesus se despojará de seu poder e é perseguido, desprezado, caluniado e é conduzido como vil criminoso rumo ao patíbulo, eis Maria presente, humilhando-se e com ele se sacrificando. Muitos cristãos seguem a Cristo em suas pregações e prodígios. Gostam de estar nos cimos iluminados do Tabor. Amam os resplendores da glória das palmas e triunfos do dia de Ramos em Jerusalém. Aí, contudo, encerram sua religiosidade. Seu bruxoleante amor não os leva ao Pretório, à Rua da Amargura ou ao Gólgota. Não prezam a renúncia, o sacrifício. Estão presos às veleidades de suas paixões. Insensatez total! O cristianismo não é isto! As palavras de Cristo foram claras: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua e siga-me”16. Dizeres que reforçam estes outros: “E o que não toma a sua cruz e me segue, não é digno de mim”17.

Maria seguindo a Cristo nas sangrentas sendas que levam ao Calvário é uma admoestação aos cristãos e um convite para que eles se revistam do espírito de Cristo e vivam uma existência de sacrifício, sob pena de não conseguirem a salvação de suas almas.

Exemplo sublime de humildade! Com esta atitude ela fulmina a soberba e o egoísmo de tantos que só procuram a própria exaltação, muitas vezes, às custas do sofrer alheio.

Fulton Sheen aborda outro aspecto não menos importante: “Se uma mãe absolutamente santa como Maria, que merecia a poupassem a todo mal, pode, pela providência de seu filho levar uma cruz, como é que nós ‑ que tão longe nos encontramos de sua pureza ‑ podemos escapar às nossas”18?

Além disto, o encontro de Maria com seu Filho na via dolorosa é uma reparação de todos os encontros dos cristãos com o pecado nos muitos desencontros com Deus e seus sagrados preceitos.

QUINTA DOR

A espada de Simeão dará no Calvário o seu golpe mais cruel. São João historiou a cena, após descrever a crucificação do Redentor: “Entretanto estavam de pé junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena”.19 Sem ponderação o que padeceu a Senhora durante as três horas de agonia de Cristo. Não foi apenas assistir um carrasco a executar uma iníqua sentença, senão presenciar os requintes da malvadez nos últimos limites da insensibilidade humana. Feridas abertas, a tentania terrifica, a febre ardente, a sede hórrida atormentavam o filho e ela impotente impossibilitada de lhe propiciar qualquer refrigério. Quais línguas de cadente fogo percorriam o corpo chagado de Jesus e a mãe percebia o quanto Ele padecia. Como se não bastassem as tribulações físicas, a irrisão, as gargalhadas, os ultrajes somavam-se àquele sofrer imenso do Filho dileto. As sete palavras de Cristo foram outras tantas feridas para o coração de Maria, que nelas percebia outras facetas do enorme sofrimento. Os inimigos de Jesus quais negros abutres sugavam as carnes divinas e estraçalhavam a angustiada alma do Homem-Deus. Maria não caiu fulminada porque a onipotência divina a sustentava admiravelmente. Foge a qualquer tentativa humana descrever com propriedade momento tão plangente. É impossível ao espírito do homem penetrar amargor tão profundo. Pobre mãe! Era preciso que, assim como Eva perdera a humana linhagem deleitando seus olhos na árvore paradisíaca e colhendo dela o fruto de perdição, ela ajudasse a salvação do gênero humano sofrendo terrível martírio ante a visão do Filho pendente da árvore da cruz, experimentando no seu intimo o fruto santo, mas repleto de acridão de um sofrer tão grande.

O amor exige correspondência. Se Cristo padeceu e morreu numa cruz e a seu lado tanto foi atormentada sua Mãe, tudo isto por causa da dileção que votavam aos homens, cumpre retribuir a estes afetos com toda a generosidade e gratidão. Amor com amor se paga, diz o brocardo popular.

O cristão que trabalha pela sua santificação e luta tenazmente contra o mal está valorizando o que o Salvador e sua Mãe fizeram por ele.

A cruz de Cristo é a partilha do cristão.

Os olhares amorosos para o Crucificado insuflam coragem na pugna cotidiana para fazer da paixão de Jesus e da compaixão de Maria a redenção de todo o mundo.

SEXTA DOR

Cristo desfalecido é tirado da cruz por Nicodemos e José de Arimatéia20. Oh instante lancinante! Maria que nada pudera fazer até então por seu amado filho, percebe, de fato, ao vivo que só restava a ela curtir o oceano de dor, cujas vagas lhe inundavam o ser. De perto vê agora o corpo de seu Jesus coberto de equimoses. Era uma chaga dorida todo ele, maltratado e estraçalhado. Transe angustiante e de indescritível amargura! Aquele que era o mais belo dos filhos do homens aí está desfigurado e marcado com o ferrete da ignomínia, totalmente deformado. Diante de um quadro assim penoso e triste se compreende melhor quão indesejável é o pecado. Foram as transgressões humanas à lei divina que reduziram Cristo a este lastimável estado. Aí a causa de todo aquele tormento para Maria. A fim de recuperar a formosura das almas, Jesus foi deste modo reduzido a um frangalho humano, afeiado e triturado.

Donde, se as prevaricações dos homens exigiram estes sacrifícios, é mister que se tenha na devida conta a graça santificante. Tão só deste modo se demonstra a Maria e ao divino Redentor uma real gratidão por tudo.

Escreveu belamente Fulton Sheen que “nesse instante, transforma-se ela na mãe de todos os filhos pródigos do mundo, preparando-os — pelos misteriosos ungüentos de sua intercessão –– para o dia longínquo, em que a vida e a ressurreição correrão em suas veias, quando eles avançarem nas asas da manhã”21.

Desolada mãe que ainda não verá o fim de seus tormentos! Se sem medidas era sua tristeza por ver o lamentável estado de seu amantíssimo Jesus, todavia ela ainda o tinha perto de si. Mais um pouco e nem este pequeno consolo ela o terá. A antevisão do sepultamento de Cristo a atribula mais ainda.

Admirável, porém, sua fortaleza interior.

Ela irá até o fim nestas trilhas tenebrosas da dor para continuar dando sua contribuição de co-redentora à regeneração da humanidade, lembrando aos homens a cota de sacrifício que Deus exige de cada um no processo salvífico pessoal.

SÉTIMA DOR

A soledade imergiria a mãe dorida num pélago ainda mais profundo. Diz São João: “Ora no lugar em que Jesus foi crucificado, havia um horto e no horto um sepulcro novo em que ninguém ainda tinha sido sepultado. Portanto, por ser o dia de Parasceve dos Judeus, visto que o sepulcro estava perto, depositaram aí Jesus”22. Naquela hora, ao ouvir o golpe da pedra sepulcral fechando o túmulo, o coração desfibrado de Maria foi inundado numa mágoa sem par. A saudade, com todas as suas garras pontiagudas, estraçalharam ainda mais o ânimo daquela Madona sofredora.

A soledade é o tormento mais cruel para as almas aflitas e tomadas por constante padecer. Qualquer casa, quando a morte a deixou vazia, é fria e massacrante pelo ar lúgubre que nela reina. Em cada canto uma lembrança. Foi ao regressar à sua habitação, no silêncio da noite, que todo o pesar da solidão se abateu sobre a Mãe angustiada. Sua imaginação, exaltada pelos eventos daquele dia, lhe trazia à memória as cenas sangrentas do martírio do Filho. Com detalhes ela revivia detalhadamente os aspectos de tudo que com Ele ocorrera.

Três dias de pranto e dor que consumaram o sofrer daquela Senhora e lhe deram definitivamente o título de Rainha dos Mártires.

Abandonada à sua dor, ela, contudo, não se revolta e renova sua aceitação dos desígnios divinos e sua inteira submissão à vontade de Deus. Perdoa os inimigos e algozes de seu Filho e acata inteiramente os misteriosos decretos do Onipotente.

Ensinamentos valiosos a serem assimilados pelos devotos de Maria. Ela ouvira há pouco Jesus dizer: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”23. Segue então os gestos de Cristo e anistia completamente todos que maltrataram tão duramente o seu Filho.

Pelos caminhos da vida, batidos por tantas agruras, é aos pés da mãe sofredora que o cristão depara, sempre, alívio e conforto. Pelo muito que padeceu, Maria pode aquilatar o amargor da lágrima de cada um e lhe propicia o lenitivo e o bálsamo. Ela confere a quem a suplica ânimo e inspira sentimentos de perdão cordial ante a calúnia, a perseguição, as afrontas.

Nos instantes de solidão, a lembrança do padecimento da Mãe celeste a sofrer os rigores de sua soledade, após o sepultamento de seu Filho até sua gloriosa ressurreição dos mortos, é luz que guia, impedindo qualquer desânimo. Ela está sempre a dizer a cada um que, por mais impetuosa que seja a borrasca, brilhará o sol a qualquer momento. O amanhã será melhor! Além de todos os dissabores deste exílio está o fulgente dia da eternidade bem-aventurada. Basta que se imite a Virgem Mártir que não desfaleceu e não teve o mínimo rasgo de desespero. Não sucumbiu à dor e, por isto, conheceu depois o júbilo pascal.

CONCLUSÃO

A devoção à Mãe das Dores, Rainha dos Mártires, sobre ser um culto de gratidão, significa estar matriculado na escola de uma Mestra admirável, que ensina preciosas lições que formam o cristão e lhe retemperam o ânimo.

A resignação com que ela suportou, por amor a seus filhos espirituais, tamanhos sofrimentos, é realmente digna de imitação.

Ela patenteia que a tribulação e a dor são caminho real por onde as almas piedosas sobem ao cume da perfeição e entram nas regiões beatificantes da mais profunda comunhão com Deus.

Honrar Nossa Senhora das Dores implica num imediato e radical aborrecimento do maior de todos os males que é o pecado, morte da alma e causa dos dissabores que ela experimentou.

A exemplo de Maria cumpre cooperar na obra da salvação empreendida por Cristo, levando os corações empedermidos a aceitarem as graças que jorraram das cinco chagas sagradas do Redentor.

Venerar a Rainha dos Mártires é receber especial fortaleza, energia celestial para os embates da existência até à vitória final.

O muito que ela sofreu insufla, por outra, confiança na sua dileção materna. Não apenas ela compreende as decepções humanas, como ainda, lá do céu, continua sua tarefa de co-redentora dos filhos que ainda atravessam o exílio terreno.

Declara o Pe. Faber: “Crescer na devoção a Maria é penhor seguro de progredir em toda a espécie das boas obras. Não há tempo melhor empregado, nem meio mais infalível de se assegurar a bem-aveturança. Mas a devoção, em resumo, não nasce tanto da veneração como do amor, por mais que esteja unido a este. Nada, contudo, mais adequado para excitar nosso amor à Santíssima Virgem como suas dores”24.

Assim, refletir sobre elas é ver crescer a dileção para como esta Mãe sofredora e aspirar um dia estar com ela por toda a eternidade, a fim de render-lhe um pleito perene por tudo quanto padeceu pela regeneração dos homens. Na Jerusalém celeste ela é a Senhora da Glória, a espera daqueles que ela ajudou tanto a regenerar.

Como, porém, per crucem ad lucem –- é pela cruz que se chega à luz sempiterna, cultuar a Senhora das Dores significa estar sempre junto à cruz redentora, jamais deixando a cruz que a cada um Deus reservou nesta peregrinação, cujo fim é uma ventura perene, merecida pelos sofrimentos de Jesus e pela compaixão de Maria.

__________________________________________
Padre Wagner Augusto Portugal

NOTAS
1 Santo Isidoro, Etym. 7 c 11.
2 Lamentações 2,13.
3 1 Colossenses 1,24.
4 Frederico G. Faber, Al pie de la Cruz, Madrid, Hijos de Gregório del Amo, S. L. Libreros Editores, 1952, p. 435.
5 Lucas 2,32.
6 Idem, ibidem 34.
7 F. Faber, op. cit., p. 100.
8 Fulton Sheen, O Primeiro Amor do Mundo, Porto, Editora Educação Nacional, 1954, p. 315.
9 Mateus 2,13 ss.
10 Fulton Sheen, op. cit., p. 318.
11 Lucas 2,52.
12 Idem, ibidem 48.
13 Fulton Sheen, op. cit., p. 325.
14 São João 19,25.
15 São Lucas 23,27.
16 Mateus 16,24; Marcos 8,34.
17 Mateus 10,38.
18 Fulton Sheen, op. cit., p. 329.
19 São João 19,25.
20 Idem, ibidem 38 ss.
21 Fulton Sheen, op. cit., p. 340.
22 João 19,41.
23 Lucas 23,34.
24 F. Faber, op. cit., p. 83.
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