30 julho 2013

Sobre o perdão

Pensei em perdão. E fiquei imaginando quantas vezes utilizei essa palavra como um banal sinônimo de desculpa. Como se o perdão estivesse relacionado apenas com o ato de anular a culpabilidade de quem é seu beneficiário. A palavra "desculpar" pressupõe desobrigar alguém de seu débito, ao passo que o perdão encontra, em suas raízes, um significado maior. Ela tem origem no latim Per Donum, o dom em sua plenitude. O dom é algo ofertado, colocado à disposição, um presente. O ato de perdoar compreende uma doação incondicional de si mesmo em favor daquele que o recebe, o perdoado. Enquanto a desculpa não passa de uma mudança de condições, o perdão é um ato que nos esvazia de nós mesmos em favor do próximo.


O perdão não exige necessariamente que o perdoado seja depositário de alguma culpa. O perdão não busca justificativas. Colocar-se a serviço, exercitar o amor sem reservas, sem desânimo e sem restrições, procurando ser o melhor para quem necessita é praticar perdão. Desse modo, as palavras de Jesus a Pedro, mandando-o perdoar setenta vezes sete adquire um colorido novo. Trata-se de se dedicar a amar incondicionalmente tantas vezes quantas forem necessárias. Perdoar é um ato intimamente relacionado ao dever Cristão de amar o próximo. Ao perdão, o catecismo se refere como "esse amor que ama até o extremo do amor" (CIC 2843).

Se vinculamos o perdão ao apagar da culpa de alguém, é porque o ato de amar não comporta ofender-se ou magoar-se. Quem ama a ponto de doar-se por completo não se ressente, mas compreende que por trás da ofensa há alguém necessitando de atenção, cuidado e cura. Olhar assim para quem nos ofende é olhar com os olhos de Deus, que nos enxerga para além de nossas imperfeições. É sobretudo esse o sentido das palavras ditas na oração do Pai Nosso: "Perdoai nossas ofensas assim como nos perdoamos a quem nos tem ofendido".

Pode-se compreender melhor agora a necessidade da Cruz. Através dela, Deus doou-se sem medidas. E, somente um ato de amor extremo através de uma entrega incondicional e gratuíta é capaz de um tamanho resgate. Deus, ciente de que para o homem não há nada mais extremo do que a morte - a nossa última consequência - quis entregar-se a esse limite. E, mais ainda, vencer o limite, nos libertando e nos acolhendo. Não foi um simples apagar de culpas, mas sobretudo um ato que culmina em uma adoção filial. Assumir nossas dívidas atraindo-as para si faz parte do seu modo de nos amar sem medidas, é apenas parte do resgate. Através de seu ato Deus quis eliminar definitivamente a distância que nos separava dEle. Quis abrir para nós as portas do Reino. Ele veio a nós, nos colocou um anel no dedo e nos abraçou.
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