24 junho 2014

O Papa, os padres e os carros




            O Papa, os padres e os carros





No dia 6 de julho, pouco antes de iniciar sua viagem ao Brasil, o Papa
Francisco se entreteve com um grupo de, aproximadamente, 6 mil
candidatos à vida religiosa e ao sacerdócio, que haviam chegado de
 toda a Itália. Em dado momento, ele confessou que «não se sente bem
 quando vê padres e religiosos em carros “último modelo”. Não pode ser!
O carro é necessário, mas que seja simples! Pensemos em quantas
crianças morrem de fome! Num mundo em que as riquezas causam tanto
dano, temos que ser coerentes. O dinheiro não pode ser a primeira
preocupação da paróquia».
O “carro dos padres”, porém, é apenas a “ponta do iceberg” da grande
reforma que o Papa deseja ver abraçada, primeiramente pelos
eclesiásticos e, em seguida, por todos os cristãos que almejam um futuro
 melhor para a Igreja e para a sociedade. Para ele, o apego aos bens 
materiais impede o encontro íntimo e profundo com Deus, transforma
 a Igreja numa empresa e corrompe o coração humano, fazendo-o
 insensível às necessidades e aos sofrimentos dos irmãos. 
Quando não partilhados, os bens escravizam a quem os detém.
Seu lugar deve ser ocupado pela única riqueza que alimenta a
 esperança da humanidade: a solidariedade.
Foi o que disse no Rio de Janeiro, na visita que fez, no dia 24 de julho,
ao Hospital São Francisco de Assis: «Quis Deus que meus passos,
depois do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, se dirigissem para
o santuário do sofrimento humano, que é o Hospital São Francisco
de Assis. É bem conhecida a conversão do santo patrono de vocês:
 o jovem Francisco abandona riquezas e comodidades para fazer-se
 pobre entre os pobres. Entende que não são as coisas, o ter, os ídolos
 do mundo, a verdadeira riqueza; não são eles que dão a verdadeira
alegria, mas, sim, seguir a Cristo e servir os irmãos».
No dia seguinte, no encontro que manteve com a Comunidade de
Varginha, o Papa acrescentou que a conversão e a identidade do
cristão se realizam plenamente na atividade por uma sociedade justa
e fraterna: «Ninguém pode ficar insensível diante das desigualdades
que subsistem no mundo! Não é a cultura do egoísmo e do individualismo
que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas a cultura da
solidariedade, que faz ver no outro não um concorrente ou um número,
 mas um irmão.
Nenhum esforço de pacificação será duradouro nem haverá harmonia e
 felicidade para uma sociedade que ignora, marginaliza e abandona na
periferia a parte de si mesma. Uma sociedade que assim age, empobrece
 a si própria e perde algo de essencial de si mesma. Só quando somos
capazes de partilhar é que nos enriquecemos: tudo aquilo que se partilha,
 se multiplica! A medida da grandeza de uma sociedade é demonstrada
pela maneira como trata a quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!».
Por fim, no dia 27, ao discursar para bispos, sacerdotes, religiosos e
seminaristas, reunidos na catedral metropolitana, Francisco lhes indicou
 o caminho para a grande obra de renovação eclesial e social por ele
almejada: «Em muitos ambientes, ganhou espaço a cultura da exclusão
 e do descartável. Não há mais lugar para o idoso e para o filho indesejado.
 Não há mais tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada.
 As relações humanas parecem regidas por dois dogmas: a eficiência e o
 pragmatismo. Tenhamos coragem de ir contracorrente! Não renunciemos
a este dom de Deus, que é sermos a única família dos seus filhos. O que
 torna a nossa civilização verdadeiramente humana é o encontro, a
acolhida, a solidariedade, a fraternidade. Coloquemo-nos a serviço
da cultura da comunhão e do encontro!».
A simplicidade dos carros – acompanhada pela simplicidade de vida –
impedirá que os ministros da Igreja se acomodem em seus templos ou
 lares, como meros prestadores de serviços religiosos. A comunhão e
o encontro obrigam a sair, disse Francisco: «Não podemos nos enclausurar
 em nossas comunidades ou instituições, quando há tanta gente esperando
o Evangelho! Não se trata somente de abrir a porta para acolher, mas de
sair para procurar e encontrar. Com coragem, pensemos a pastoral a partir
da periferia, a partir de quem está afastado e não frequenta a paróquia.
 Ele também é convidado à mesa do Senhor!».
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