03 dezembro 2015

Frei Galvão, um santo brasileiro


                      Frei Galvão, um santo brasileiro

                                O Brasil até hoje não tinha um santo aqui nascido

Quando o frei Antonio de Sant’anna Galvão morreu, em 1822, toda a Capitania de São Paulo, onde ele viveu sessenta dos seus 83 anos de vida, o velou no Mosteiro da Luz; eram mais de 3.000 pessoas, num tempo em que a população da cidade não passava de 25.000 habitantes. Os fiéis recortaram-lhe pedaços da batina e retiraram pequenas pedras de seu túmulo para mergulhá-las na água que dariam aos doentes na esperança de que fossem curados.



Durante sua vida diversos milagres foram atribuídos ao Santo, que, com sua única batina, costumava percorrer a pé os vilarejos do interior de São Paulo, pregando para os pobres. Por onde ele passava, multidões acorriam. O papa Bento XVI no Campo de Marte, em São Paulo, canonizou o frade franciscano, que se tornou o primeiro santo genuinamente brasileiro.

O Brasil até hoje não tinha um santo aqui nascido. Madre Paulina, canonizada em 2002, embora tenha vivido a maior parte de sua vida nos estados brasileiros de Santa Catarina e São Paulo, nasceu na Itália. Frei Galvão nunca saiu do Brasil. Criado em uma família rica e poderosa – o pai foi capitão-mor de Guaratinguetá, no interior de São Paulo –, ele deixou a casa paterna aos 13 anos para estudar com os jesuítas na Bahia. Aos 21, ingressou na Ordem dos Franciscanos, no Rio de Janeiro. Ordenado sacerdote, veio para São Paulo.

Um dos milagres para a sua canonização foi o da paulista Sandra Grossi de Almeida, hoje com cerca de 40 anos. Havia muito tempo, Sandra sonhava em ser mãe, mas, por causa de uma má-formação do útero, já havia sofrido dois abortos espontâneos, um deles de gêmeos. Quando, em 1999, engravidou pela terceira vez, os médicos a avisaram de que o feto provavelmente não passaria do quinto mês. Desde o início da gestação, Sandra começou a ter sangramentos. Diante da perspectiva de mais uma perda, desesperou-se – até que uma amiga levou a ela três minúsculos pedacinhos de papel enrolados em forma de cânula. Eram as pílulas de frei Galvão. Hoje reputadas como milagrosas, elas surgiram entre 1785 e 1788.

O sangramento de Sandra cessou no dia seguinte à ingestão das pílulas – e Enzo, hoje com 10 anos, é um menino saudável. Depois de analisar uma bateria de exames de Sandra, a comissão médica da Congregação para as Causas dos Santos, composta de cinco profissionais, concluiu que um útero com as características do dela (chamado bicorne, por se dividir em duas cavidades, ambas muito pequenas) não ofereceria espaço suficiente para que um feto crescesse. Por unanimidade, atestou que a ciência não tinha explicação para o fato de Sandra ter concluído a gestação. Em 1998, o Vaticano já havia confirmado um primeiro milagre do frei: a cura da menina Daniela Cristina da Silva, que, em 1990, fora desenganada pelos médicos por causa de uma hepatite aguda.

Por volta de 1788, o frade franciscano foi procurado por dois homens que lhe pediram que intercedesse pela saúde de seus familiares: o marido de uma gestante com problemas no parto e o pai de um menino que sofria de uma doença renal. Como não podia ir até os doentes, o franciscano resolveu escrever uma oração em um pedaço de papel, que cortou em três pequenos pedaços e ofereceu aos homens, recomendando que fizessem os doentes tomá-los como remédio.

Tanto a gestante como o rapaz ficaram curados, de acordo com relatos do período. Desde então, a fama das pílulas se espalhou pelo Brasil. Até hoje, no Mosteiro da Luz, treze freiras trabalham na sua confecção: enrolam uma tira de papel de arroz em que está impressa dezessete vezes a oração escrita pelo religioso – uma prece em latim dirigida à Virgem Maria – e depois a cortam em catorze pedaços para deixar as pílulas em formato de microcânulas. Todos os dias, pela manhã, formam-se, diante do mosteiro, enormes filas de pessoas em busca do remédio supostamente milagroso. Diariamente, as irmãs produzem e distribuem mais de 5 000 pílulas aos fiéis.
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